Abrir ou não abrir a CPI de Cachoeira, eis a questão

A semana começa mais cedo em Brasília. Não, não houve mudança do calendário. Segunda-feira continua sendo o primeiro dia útil da semana. É que em Brasília é corrente dizer que a semana só se inicia mesmo na terça quando Senado e Câmara dos Deputados já estão em pleno funcionamento. Mas esta será uma semana atípica, de muita correria, e que os líderes partidários já estarão em Brasília para negociações e mais negociações. E por quê? Eu explico!

Um dos grandes jogadores do selecionado de Dilma no Congresso Nacional está contundido. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), está internado desde sábado com insuficiência coronariana. Logo ele que jogando de zagueirão neste momento poderia usar toda a sua influência para frear a coleta de assinaturas para instalação da CPI do Cachoeira. Não. Você não está entendendo errado. Apesar da CPI ter como alvo primeiro o senador Demóstenes Torres (ex-DEM, agora sem partido), os petistas mais “espertos” (em todas as variantes que o termo possa supor) descobriram que era melhor colocar em campo a turma do “deixa disso” e permitir a bola rolar. Senão, pode rolar gol contra. Então, petistas e seus aliados de peso, como é o caso de Sarney, já estariam adotando uma estratégia de botar o pé no freio nesta história de CPI do Cachoeira.

Mas não tem jeito, se o jogo nesta segunda não se tornar bruto e as assinaturas suficientes forem coletadas, caberá à vice-presidente do Senado Federal, Marta Suplicy (PT-SP), instalar a comissão nesta terça-feira. Conversas de bastidores da política dão conta de que Dilma, desde que retornou dos Estados Unidos, tem recebido recados e mais recados do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), e do senador Delcídio Amaral (PT-MS), que teriam chegado a classifica a CPI como “de alto potencial destrutivo”.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o senador Delcídio do Amaral, que já presidiu a CPI dos Correios que apurou o escândalo do mensalão “o alcance dessa CPI do Cachoeira seria inimaginável. Só a empresa Delta Construções (que aparece nas gravações telefônicas feita pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, e recebeu R$ 4,13 bilhões do governo federal por obras do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC) – está presente em quase todo o País, principalmente na construção e reforma de estradas”. E o arremate do senador petista (que quer dizer do PT, do partido da Dilma, do Lula, o Partido dos Trabalhadores. Tá bom ou quer que desenha?), Delcídio do Amaral é fabuloso: “Eu já fiz vários alertas sobre isso. Estão brincando com fogo”.

O grande problema é que pelo rol de políticos que já aparecem na lista dos envolvidos com o esquema de Cachoeira demonstra uma democracia “nunca antes vista na história deste país”. Lá figuram políticos de todas as cores partidárias. Se puxada a linha chega até Waldomiro Diniz e José Dirceu, os primeiros a protagonizar algum timo de relação com Carlinhos Cachoeira. Assim a cachoeira respingaria sobre muitos, e lá estariam nomes do PSDB, PT, DEM, PP, PPS, PMDB, PR, e por aí vai. E quem para, olha, escuta e pensa só vêm à cabela uma sigla: PQP…

O que Delcídio do Amaral e outros caciques de Brasília, e pelo jeito agora sob o comando da matriarca Dilma, não podem se esquecer, é que a CPMI dos Correios que na época foi uma vitória da oposição a Lula, foi um chute no s… que tirou de cena muita gente de peso do staff lulista, a começar por aquele que um dia chegou a ser pensado como um nome para a presidência, o então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. De quebra arrastou uma leva de políticos de postura ética e moral questionável, alguns, graças a Deus, banidos da vida pública. Porém, mesmo que ela não tenha colocado um fim na corrupção, e que o Mensalão ainda seja um caso a ser apreciado pelo Supremo, é inegável que ela foi importante para a transparência pública e para que conhecêssemos melhor alguns personagens que transitavam publicamente e, também, pelos esgotos do poder. Neste aspecto, a CPMI de Cachoeira poderá, igualmente, trazer à tona muita coisa que, ao fundo, vai nos ajudar a continuar passando o Brasil a limpo e separar o joio do trigo. Aliás, anda sobrando pouca produção de trigo ultimamente.

E nessa cruzada de Dilma ela anda fula da vida mesmo é com o presidente nacional do PT, Rui Falcão, que numa gravação direcionada ao site do partido deixou claro nas entrelinhas de sua fala que a CPI de Cachoeira e Demóstenes (como ele chama) ajudaria a desmascarar os falsos moralistas que “montaram a farsa do mensalão” (termo dele). Ou seja, deu lenha para fogueira daqueles que tentam alimentar que tudo o que está ocorrendo agora é para desviar a atenção do julgamento do Mensalão, que o Supremo pode colocar em pauta ainda neste primeiro semestre.

Mais engraçado ainda é ver que as mesmas armações de bastidores para conter a CPMI colocam do mesmo lado da trincheira o governo Dilma Rousseff e a Revista Veja, que muitos acusam de ligações estreitas com Carlinhos Cachoeira na obtenção de informações para suas matérias jornalísticas (aliás, nada que o bom jornalismo investigativo não faça desde sempre). Mas é que Veja também levantou a bandeira contra a instalação da CPMI. E para o simples observador não é complicado notar uma diferença na revista. Ela que semana a semana trazia denúncias contra o Governo Federal desde que explodiu o caso Demóstenes Torres arrefeceu os ânimos. Basta ver as capas das últimas seis edições. Que coisa mais bonitinha, mais light!

Então, que ninguém se assuste se de hoje pra amanhã o STF atender os pedidos de documentos sob sigilo que o Senado teria solicitado e se isto for a desculpa que eles usarão para dizer que não há mais necessidade de uma CPMI, e que de posse dos documentos podem tratar da punição “dos seus” nos âmbitos dos Conselhos de Ética do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Esta segunda e terça prometem.

Eu sou Melck Aquino, e essa é a minha opinião.