Balé das Flores – Novo CD de Marinho Lima

Às vezes me questiono se o amigo, cantor e compositor Marinho Lima não tivesse enveredado pelos lados da música o que escolheria como profissão? Tá bom que até jogador de futebol ele já foi. Jogou pelo Dianópolis, do sudeste do Tocantins (Goiás, na época) nos anos de 83 e 84, usando o nome de “Chico”. Conta o editor-executivo Marcelo Santos, do Jornal do Tocantins, que ele era zagueiro e dos bons. Mas no fundo, acho que Marinho Lima seria um florista e, nesse caso, tomando de empréstimo a afirmação contundente e direta de Marcelo Santos: “dos bons”. Um florista daqueles especializados em orquídeas, flores de jade e tulipas raras. E por quê? Porque sua relação amigável com as flores é límpida, clara e ultra evidenciada até mesmo no nome da filha Lelís Jardim. E pra combinar com a boa música que faz, somente sendo um especialista em flores raras.

E agora, pra completar, Marinho Lima acaba de lançar o belíssimo CD “Balé das Flores”, sem cheiro, mas de “cores” variadas e uma sonoridade primorosa que nos faz ter a certeza de que o mundo não está perdido. O cantor e compositor é piauiense, filho de Morros da Mariana, mas está radicado em Brasília desde 1970. Amante de futebol, teve moradia provisória em Dianópolis-TO, sem perder seu vínculo com a capital federal. Filho de músico, começou cedo, aos sete anos, a descobrir os mistérios e prazeres das primeiras notas musicais, tocando gaita no grupo escolar de sua cidade natal. Em 2000, já com anos de estrada, shows, bares, e festivais (aliás ganhou muitos), Lima gravou seu primeiro CD, intitulado “Olhos de Lelís”, que inclusive teve a participação especial de sua filha Lelís Jardim, na época com apenas seis anos, que se juntou a feras como Hamilton de Holanda, Oswaldinho do Acordeom, Papete, e de vários outros músicos brasilienses. Um CD que Marinho Lima pôde lançar em 2004 em Palmas, quando da primeira fase (a melhor) da Casa do Melck.

Com 24 anos de carreira e muita bagagem musical, Marinho Lima, que já tocou até na capital do mundo, que segundo o amigo Tião Pinheiro, fica na sempre bela e acolhedora Monte Alegre de Goiás, chega com mais uma produção independente com seu “Balé das Flores”, que aliás é a primeira canção deste trabalho fonográfico produzido e dirigido por Orcelo Mendonça, lançado com apoio do Fundo de Apoio a Cultura do Distrito Federal. A canção “Balé das Flores” é um samba no estilo mais clássico, na expressão mais autêntica da cultura musical brasileira. Lá estão o cavaco e os violões de seis e sete cordas do competentíssimo Felix Junior, o pandeiro marcante de Ytto Moraes e o acordeon de Carlinhos Barbosa. Mas tem, de forma especial, a flauta de Ocelo Mendonça que na introdução nos remete às melhores lembranças do chorinho de Pixinguinha e sua trupe. Ritmo que volta também em “Sem Perdão”, onde não há como não “ver” e ouvir a influência da cadência sambista de um Paulinho da Viola, provando que Marinho Lima bebe em boa fonte.

Mas o jardim musicalmente florido de Marinho Lima é variado e o CD demonstra toda a sua versatilidade musical que despeja seus versos regionais, seu bolero, seu romantismo, e até mesmo seu lado mais pop e seu baião de nordestino que não perdeu as influências. Por falar em balanço nordestino, no CD há boas incursões pelo gênero com “Saudade Matadeira”, “Fuxico de Passarinho” e “Meu Coração Tá Quase Pegando Fogo”, esta última dançante e radiofônica. E quando se aventura a realizar um cover, só fez um no CD (e gravou uma inédita de Bilia e Batata), ele exagera, e escolhe logo o fabuloso compositor mineiro Celso Adolfo e sua melodiosa “Nós Dois”. Respeita a obra original, sem abrir mão de dar seu toque brejeiro, acompanhado somente das cordas e do violão perfeito de Ocelo Mendonça.

Destaque também para a bela canção em parceria com Lis Lima “Que Tudo Não Seja o Bastante”, que se não bastasse a força musical ainda nos lembra da força da palavra com versos como: “Que a minha língua afiada não seja a tua faca/ Que a minha mão de veludo não seja o teu escudo/ Te faço silêncio cantando a canção que eu te fiz outro dia/ O meu olho acusa tua ausência quando amanhece o dia.” Aliás, o lado compositor de Marinho Lima é o que mais se destaca, além da produção primorosa e bem acabada que teve lugar no Studio Nota e Arte de Brasília.

Faz tempo que não vejo Marinho Lima, e ele chega devagar com o seu segundo CD me fazendo revisitar o poeta e dramaturgo russo Maiakóvski, um dos meus ídolos de adolescência. Em um dos seus poemas mais lindos Maiakóvski dizia:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Traduzindo para a música, Marinho Lima lutou pelo seu jardim e não deixou que os modismos, a necessidade de sobreviver das noites dos bares de Brasília, e o mostro assustador da mídia a exigir músicas de consumo rápido, efêmero e sem conteúdo, lhe tirassem a voz. Por isto mesmo, ele tem muito a dizer. Vista seu melhor terno, seu mais lindo vestido longo e venha para esse “Baile das Flores” de Marinho Lima. Mas se prepare para uma experiência musical das melhores.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *