Um pacto com a imprensa para criar uma agenda positiva para a saúde. Como é isso?

O novo secretário da Saúde, Nicolau Cardoso Esteves, tomou posse falando em um plano de gestão que pretende apresentar num prazo de 120 dias, na tentativa de organizar a saúde do Estado. Particularmente tenho minhas reservas porque vejo que o estado terminal em que se encontra a saúde no Tocantins não há como nos darmos ao luxo de quatro meses para um plano de gestão. Até porque estamos já com 14 meses de administração, pesquisas detalhadas e discussões mil, com formulações precisas que já ocorreram no Agenda Tocantins e que hoje fazem parte de um planejamento global, aí se incluindo a saúde, ponto mais debatido nos nove fóruns realizados. Mas, paciência. O homem é um gestor privado, e como tal, sabe a importância da planejar antes de executar. Tomara que decida considerar o planejamento já feito no PPA, e assim reduzir estes prazos. Nós todos ficaremos felizes.

Porém, o que mais me chamou a atenção nas declarações do multi-empresário Nicolau Esteves, agora secretário Estadual da Saúde, foi a proposta do pacto em prol da saúde. O novo secretário disse que vai inicialmente procurar o Ministério Público Estadual (MPE), porque segundo ele os procedimentos na saúde estão judicializados e isto não seria positivo. Logo o Ministério Público que tem sido o recurso daqueles que não conseguem o atendimento de saúde previsto constitucionalmente e recorrem em prol dos seus direitos.

Mas mais do que isto Nicolau Esteves quer um pacto com a imprensa. Disse ele: “Vou iniciar essa peregrinação em busca de parcerias e defender a importância de uma agenda positiva junto à imprensa, pois a mudança na saúde só é possível se feita em conjunto com a sociedade”. Caramba… Já vi esta história. E confesso que ela não me agrada. A imprensa tem seu papel livre de fiscalizador e de relato dos fatos. No 

geral, acho até que a grande imprensa pode se abster de dar opinião, que é a linha mestra do que faço no meu blog, por exemplo, que é algo muito específico e se volta a atingir um público qualificado. Porém, a imprensa não pode se abster de noticiar os fatos que interessam à comunidade. Já não há mais espaço para uma imprensa que, por exemplo, fique meses e meses a ver comícios monstruosos pelas Diretas Já e não tenha a dignidade de dar pelo menos uma notinha seca nos seus telejornais e que quando é obrigada a mostrar imagens, como no comício dos 300 mil em São Paulo, noticia como uma festa em comemoração ao aniversário da cidade.

Então, “agenda positiva com a imprensa” na área da saúde pode sim ser construída. Como? Com mais leitos de UTI, com cirurgias neurológicas, com a contratação de médicos, com salários dignos para os profissionais do setor, com hospitais regionais que desafoguem o HGP, com atendimento descente aos pacientes de câncer, com ações preventivas de saúde, e por aí vai. Só assim há como a imprensa ressaltar positivamente as questões da saúde pública.

Por mais que um repórter queira ressaltar o tanto que era confortável a cadeira que o menino Wellington Gonçalves Reis se sentou por longas 20 horas à espera de atendimento adequado no HGP e depois perdeu a vida com uma infecção generalizada, ele não conseguirá. Nos bancos da faculdade ouvi um dia um professor certa vez dizer: o bom redator é aquele que o editor chega e diz que há um espaço para ocupar no jornal e que cabe um texto de 20 linhas. Aí o jornalista pergunta: sobre que assunto quer que eu escreva? O editor já puto com o fechamento do jornal diz: sei lá, qualquer coisa. Como estamos na Semana Santa escreve aí sobre Jesus Cristo. Como o jornalista quer provar que é bom mesmo ele só pergunta mais uma coisa: Contra ou a favor? Pois é… Na prática, não é tão simples assim.

Talvez eu me arrepie todo ao ouvir se falar em pacto porque lá nos anos 80, na flor da minha juventude militante eu assisti o “pacto social” entre governo, empresários e trabalhadores proposto por José Sarney. Os tais pactos sociais, que de uma forma ou outra apareceram também nos governos de Collor, Itamar, FHC e Lula são sempre apresentados diante de graves crises econômicas, políticas e sociais e tem por objetivo convencer os trabalhadores a fazer sacrifícios para garantir “a retomada do crescimento econômico do país”. Naquela máxima de que a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco, a conta costuma a sobrar somente para as camadas mais pobres da população. No caso de Sarney, pra quem não se lembra, o congelamento de preços e salários foi o expediente usado pelo governo na época da hiperinflação. Os salários foram congelados abaixo da inflação e sem reajustes, enquanto os preços ficaram nas alturas.

E como será o pacto na saúde? Ministério Público parando de ajuizar ações na justiça para garantir direitos do cidadão? Imprensa deixando de noticiar as mazelas? Justiça sentando em cima das ações para que elas não prossigam e o Estado não seja condenado a pagar por serviços que são de sua obrigação? Tantas perguntas pairam sobre minha cabeça que temo entrar “em parafuso” e ser vítima de um problema neurológico. Até porque, nos próximos quatro meses, já sei que o melhor hospital que posso procurar em Palmas responde pelo nome de Brigadeiro Lysias Rodrigues, o Aeroporto de Palmas.

Eu sou Melck Aquino, e essa é a minha opinião.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *